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Pausa para leitura :: Ana Terra

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Pausa para leitura :: Ana Terra

 

an terra

por Isabela Lapa*

Ana Terra é um clássico da literatura brasileira e é um dos capítulos da trilogia O TEMPO E O VENTO, um grande sucesso do escritor, que retrata de forma única o processo de formação do Estado do Rio Grande do Sul.

Este livro conta a história da família Terra e se passa no período de 1777 a 1811. Como personagem central, Veríssimo traz Ana Terra, uma jovem que vive com a família e, em um dia comum, encontra um índio (Pedro Missioneiro) ferido. Com a ajuda do pai (Maneco Terra) e dos irmãos (Antônio e Horácio), ela socorre o homem.

Apesar do clima de desconfiança gerado inicialmente, aos poucos ele foi se mostrando habilidoso, culto e muito útil, o que fez com que se instalasse nas terras da família.

Ana, que se sentia solitária e que estava desenvolvendo os interesses sexuais, criou um misto de sentimentos pelo índio: ódio, admiração, paixão etc. Em uma tarde comum, se entregou a ele e engravidou.

A notícia da gravidez de Ana chega ao conhecimento da família, o que altera completamente a relação entre eles. O pai resolve ignorá-la e ordena que os irmãos levem Pedro a um lugar distante e o matem. Um clima de animosidade permanece por um grande período.

Com o nascimento da criança, que recebe o nome de Pedro em homenagem ao pai, a situação se mantém. O avô e os tios o desprezam e a única pessoa que lhe dá atenção e carinho é a avó, Dona Henriqueta, mãe de Ana e uma mulher forte, determinada e, da sua forma, amável.

Porém, um tempo depois, Dona Henriqueta falece, o que causa em Ana certo alívio, por saber que a partir daquele momento a mãe não seria mais escrava e sua alma estaria livre.

Anos depois, a família Terra começa a plantar trigo. Por tal razão, o avô e o neto se aproximam e a relação familiar começa a melhorar. Ocorre que um grupo de castelhanos invade a fazenda dos Terra e, além de matar os irmãos de Ana e o seu pai, roubam toda a plantação. Os castelhanos a estupraram e humilharam, mas em meio a tudo isso ela se manteve forte e segura.

Este fato encerrou uma fase da vida de Ana. Sem alternativa, ela saiu da fazenda com a ajuda de um grupo e foi em busca de um lugarejo denominado Santa Fé. Lá, construiu seu próprio rancho e se tornou a parteira da região.

Após um período no local, as guerras começaram e Ana vê Pedro, que já estava com 20 anos, sair da cidade para lutar. Após a espera dolorosa de quase um ano, ele retorna, casa com uma boa mulher, tem dois filhos (sendo que uma é Bibiana, personagem central de outro livro da série) e vive em paz com a família.

No entanto, após um tempo é novamente convocado para a guerra. E neste cenário de espera e de solidão, que é um dos assuntos centrais do livro, a história chega ao final.

Sobre o contexto e a narrativa:

Como já mencionamos, a história do livro retrata os anos de 1777 a 1811. Um período histórico permeado por pobreza, sofrimento e guerras.

No entanto, Érico apresenta uma personagem que se relaciona de forma segura e firme com toda a solidão, a tristeza e as dificuldades enfrentadas pela família, o que representa a sua visão acerca das mulheres gaúchas da época.

Durante o livro lida com temas como violência, hierarquia entre homens e mulheres, submissão, erotismo etc.

Um grande destaque é a passagem do tempo, que é feita por meio das estações do ano. Não existem menções a calendários e, em regra, a definição dos anos é imprecisa.

O nome da saga, inclusive, reflete bem a idéia do autor: o tempo traz os acontecimentos e, na maioria das vezes, eles vêm acompanhados pelo vento. Inclusive, a história começa com a frase “Sempre que me acontece uma coisa importante, está ventando”.

Trata-se de um livro agradável, com uma narrativa simples e em terceira pessoa, que consegue encantar o leitor por várias razões, entre elas, pelo importante contexto social (família, formação de um povo etc).

Passagens interessantes:

Naquela casa nunca entrava nenhuma alegria, nunca se ouvia nenhuma música, e ninguém pensava em diverimento. Era só trabalhar o quanto dava o dia. E a noite – dizia Maneco – tinha sido feita para dormir.

Os dias que se seguiram foram para Ana Terra dias de vergonha, constrangimento e medo. Vergonha pelo que tinha passado; constrangimento perante Pedro, quando o encontrava diante de outras pessoas da casa; e medo que estas últimas pudessem ler nos olhos dela o que tinha acontecido.

Era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava por todas as fases, as estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e nas pessoas.

Um dia – pensou ela – havia de mandar o filho para uma escola. O diabo era que não existia nenhuma escola naqueles cafundós. Ouvia dizer que um homem na vila do Rio Grande tinha aberto uma aula para ensinar a ler, escrever e contar. Mais tarde, quando Santa Fé fosse povoado, talvez o coronel mandasse abrir uma escola, se bem que no fundo ela achasse que uma pessoa podia viver muito bem e ser honrada sem precisar saber as letras.

No inverno de 1806 Ana ajudou a trazer para o mundo seu segundo neto, uma menina que recebeu o nome de Bibiana. Ao ver-lhe o sexo, a avó resmungou: “Mais uma escrava.” E atirou a tesoura em cima da mesa num gesto de raiva e ao mesmo tempo de alegria.

(*) Isabela Lapa é advogada e
uma das criadoras do delicioso blog Universo dos Leitores

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